No momento em que um dirigente histórico da resistência árabe libanesa na Síria acabou de ser morto pelo exército sionista, endereço esta carta aberta aos inteletuais e militantes de « esquerda » que tomaram partido em favor da rebelião síria e acreditam defender a causa palestina enquanto sonham com a queda de Damasco.

Vocês diziam, na primaveira de 2011, que as revoluções árabes representavam uma esperança sem precedente para os povos sofrendo o jugo de déspotas sanguinários. Num excesso de otimismo, nós vos ouvimos, sensíveis aos seus argumentos sobre esta democracia nascendo milagrosamente e às suas proclamações sobre a universalidade dos direitos humanos. Vocês quase conseguiram nos convencer que este protesto popular que derrubou os ditadores tunisiano e egípcio iria varrer a tirania de todos os países árabes, na Líbia como na Síria, no Iémem como em Barein, e quem sabe onde mais.

Mas este belo lirismo não demorou para mostrar suas falhas. A primeira falha, escancarada, apareceu na Líbia. Adotada pelo Conselho de Segurança para socorrer as populações civis ameaçadas, uma resolução da ONU se transformou em licença para a destituição manu militari de um chefe de Estado que se tornou embaraçoso para seus parceiros ocidentais. Digno dos piores momentos da era neoconservadora, esta operação de « regime change », realizada em nome dos EUA por duas potências européias em busca de afirmação neoimperial, provocou o desastre que a coitada da Líbia continua até hoje a pagar o preço. O colapso deste jovem Estado unitário entregou o país às ambições desenfreadas das facções e das tribos, conscientemente encorajadas pela cobiça petrólifera dos urubus ocidentais.

No entanto, havia boas almas entre vós para conceder atenuantes à essa operação, assim como havia mais ainda para exigir que um tratamento semelhante seja aplicado ao regime de Damasco. Porque o vento da revolta que soprava então na Síria parecia validar vossa interpretação dos acontecimentos e dar uma justificação a posteriori ao belicismo humanitário desencadeado contra o potentado de Trípoli. No entanto, longe da mídia « mainstream », alguns analistas avisaram que o povo sírio não era unánimo, que as manifestações antigovernamentais aconteceram sobretudo em certas cidades, redutos tradicionais da oposição islamista, e que a febre social das camadas empobrecidas pela crise não provocaria a queda do governo sírio.

Essas advertências de bom senso, vocês as ignoraram. Como os fatos não correspondiam à sua narrativa, vocês as classificaram à sua conveniência. Onde observadores imparciais viam uma polarização da sociedade síria, vocês queriam ver um tirano sanguinário assassinando seu povo. Onde um olhar desapaixonado permitia enxergar as fraquezas e também as forças do Estado sírio, vocês abusaram de retórica moralizadora para acusar um governo que era longe de ser o único responsável da violência. Vocês viram os numerosos protestos contra Bachar Al-Assad, mas vocês não viram as gigantescas manifestações de apoio ao governo e às reformas que encheram as ruas de Damasco, Alepo e Tartous. Vocês estabeleceram a contabilidade macabra das vítimas do governo, mas esqueceram a das vítimas da oposição armada. Segundo vocês, havia boas e más vítimas, vítimas que merecem ser mencionadas e vítimas que ninguém quer ouvir falar. Deliberadamente vocês viram as primeiras, e se cegaram às segundas.

Ao mesmo tempo, este governo francês, cuja política interna vocês criticam a vontade para alimentar a ilusão de vossa independência, vos deu razão em tudo. Estranhamente, a narrativa do drama sírio que vocês adotaram coincidia com a política estrangeira do Sr. Fabius, obra-prima de servilismo misturando o apoio incondicional à guerra israelense contra os Palestinos, o alinhamento pavloviano à liderança estadunidense e a hostilidade à resistência árabe. Mas seu casamento ostensivo com o Quai d’Orsay (Ministério das Relações Exteriores da França – NDT) não parecia vos incomodar. Vocês defendiam os Palestinos de um lado, e jantavam com seus assassinos do outro. Até aconteceu de vocês acompanharem os dirigentes franceses em visita oficial em Israel. Vocês seguiram, cúmplices, para assistir ao espectáculo de um presidente declarando que « sempre amará os dirigentes israelenses ». Mas precisava mais para que vocês estejam escandalizados, e você pegaram o avião de volta com o presidente, como tudo mundo.

Vocês tinham condenado, com razão, a intervenção estadunidense contra o Iraque em 2003. A virtude roborativa do bombardeio pela democracia não vos emocionou, e vocês duvidavam das virtudes pedagógicas dos ataques cirúrgicos. Mas sua indignação com a política do canhão versão « high tech » se mostrou estranhamente seletiva. Porque você pediam sem descansar para Damasco o que vocês julgavam intolerável dez anos antes contra Bagdá. Uma década foi suficiente para que vocês se tornassem tão maleáveis ao ponto de ver a salvação do povo sírio nesta chuva de mísseis num país que não vos fez nada. Renegando suas convicções anti-imperialistas, vocês adotaram com entusiasmo a agenda de Washington. Sem vergonha, vocês não só aplaudiram os B-52, como também vocês repetiam a propaganda US mais grotesca, cujo precedente iraquiano e as memoráveis mentiras da era Bush deveriam ter imunizado vocês.

Enquanto vocês inundavam a imprensa francesa com suas inépcias, foi um jornalista estadunidense, investigador incomparável, quem desmacarou o lamentável « false flag » destinado a responsabilizar o Bachar Al-Assad de um ataque químico que nenhuma instância internacional o tinha acusado, mas que as pericias do Massachussets Institue of Technology e da Organização pela proibição das armas químicas atribuiram à parte oposta. Ignorando os fatos, os mascarando se necessário, vocês tocaram sua miserável partitura nesta cacofonia de mentiras. Pior ainda, vocês continuam o fazendo. Enquanto o proprio Obama deixa entender que não acreditou, vocês persistem repetindo essas mentiras, como cães de guarda que latem depois da disparição do intruso. E por qual motivo? Para justificar o bombardeio, por seu proprio governo, de um pequeno Estado cujo erro é recusar a ordem imperial. Para ajudar uma rebelião síria que vocês mascararam a verdadeira face, acreditando no mito de uma oposição democrática e laica que só existe nos salões dos grandes hoteis de Doha, Paris ou Ankara.

Esta « revolução síria », vocês a exaltaram, mas vocês desviaram pudicamente o olhar de suas práticas mafiosas, de sua ideologia sectária e de seu financiamento turvo e duvidoso. Vocês ocultaram cuidadosamente o ódio interconfissional que o inspira, esta mórbida aversão contra as outras confissões direitamente inspirada pelo wahabismo que é seu cimento ideológico. Vocês sabiam que o regime baassista, por ser laico e não confissional, constituia uma segurança para as minorias, mas não vos interessava, e vocês até qualificaram de « cretinos » aqueles que defendiam os cristãs perseguidos. Mas não é só. Na hora do balanço, sobrará ainda esta última infâmia: vocês caucionaram a política do Laurent Fabius para quem Al-Nosra, o ramo sírio da Al-Qaida, « faz um ótimo trabalho ». Não importam os transeuntes triturados nas ruas de Homsou os alauitas de Zahra assassinados pelos rebeldes: para vocês, não são mais do que peixes pequenos.

Entre 2011 e 2016, as máscaras cairam. Vocês alegam o direito internacional, mas aplaudem sua violação contra um estado soberano. Vocês pretendem promover a democracia para os Sírios, mas vocês se tornaram os cabos do terrorismo que eles aturam. Vocês dizem defender os Palestinos, mas vocês estão do lado de Israel. Quando um míssil sionista cai na Síria, não temam: ele nunca matará seus amigos. Graças à Israel, graças à CIA, e graças à vocês, estes corajosos rebeldes vão continuar preparando o futuro brilhante da Síria sob a bandeira do takfir. O míssil sionista vai matar um dos dirigentes desta resistência árabe que vocês trairam.

Bruno Guigue – 13 de maio de 2016.

Bruno Guigue é um alto executivo da funçaõ pública francesa, ensaista e politólogo francês nascido em Toulouse em 1962. Foi aluno da École Normale Supérieure et da ENA (Escola nacional de Administração). Professor de filosofia e encarregado de curso em relações internacionais no ensino superior. Ele é autor de cinco livros, incluindo « Aux origines du conflit israélo-arabe, l’invisible remords de l’Occident » (L’Harmattan, 2002).

Tradução do francês por Chico Libri

Fonte: https://arretsurinfo.ch/lettre-ouverte-aux-charlatans-de-la-revolution-syrienne-par-bruno-guigue/

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